Em livro sobre fome no Brasil, pesquisadores do GPP discutem dinâmica de produção agropecuária


A Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis lançou na semana passada o livro “Da fome à fome: diálogos com Josué de Castro”, obra que resgata o pensamento do intelectual pernambucano para discutir a situação da fome no Brasil atualmente. A pesquisadora do GPP, Ana Chamma, e o ex-coordenador do grupo, Gerd Sparovek, contribuíram para o livro com o artigo “De onde vem e para onde vai: o caso do setor agropecuário brasileiro”. Nele, os autores tensionam a contradição do atual cenário nacional: um país recordista em produção agropecuária, com recordes em safras e exportações; que, ainda assim, testemunha o recrudescimento da fome em sua população, com mais da metade dos brasileiros enfrentando algum grau de insegurança alimentar, segundo pesquisa da Rede Penssan.


“O Brasil é um dos principais produtores agropecuários do mundo – maior produtor de soja, cana-de-açúcar, café e suco de laranja, e o segundo maior produtor de carne bovina. O agronegócio brasileiro se situa no global food trade game como um importante player em face de seu tamanho e potencial de oferta de alimentos (Schneider et al., 2020). Contudo, é contraditório o crescimento da insegurança alimentar no país – dezenove milhões de pessoas enfrentavam a fome em 2020 (Rede Penssan, 2021) – quando as exportações brasileiras de produtos agropecuários batem recordes. O volume exportado pelo setor agropecuário cresceu 10% de 2019 para 2020, e o faturamento, 4%, atingindo 101 bilhões de dólares”, escrevem os autores logo no início do texto.


Ao longo do artigo, Chamma e Sparovek apresentam um histórico do desenvolvimento do setor agropecuário no Brasil, explicando como o país alcançou protagonismo no agronegócio mundial. Além disso, apresentam também dinâmicas territoriais observadas ao longo do tempo, em especial nas últimas quatro décadas, demonstrando que a intensificação da produção agropecuária não pode ser vista como solução única para um caminho produtivo mais sustentável. Os autores abordam então as dinâmicas que vêm sendo observadas no campo: a concentração produtiva e a desativação, principalmente, de pequenas propriedades rurais.


“É possível dizer que o setor agropecuário brasileiro não está, e talvez nunca esteve, voltado para solucionar o problema da fome no país, pelo menos internamente (já que exporta grandes volumes de alimentos). Porém, isso não é novidade. Em seu livro Geografia da Fome, lançado em 1946, Josué de Castro desmistificou a ideia de que a fome resultava da escassez do quantitativo de alimentos e das condições climáticas para tal; ela seria, na verdade, decorrente da estrutura sociopolítica e da má distribuição de terras ou recursos no país”, apontam.


O livro possui uma versão digital de acesso aberto – clique aqui para ler. Exemplares impressos podem ser adquiridos junto à Editora Elefante. “Da fome à fome” foi organizado pela professora-titular da Cátedra Josué de Castro, a ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome Tereza Campello, em conjunto com a pesquisadora-assistente da Cátedra, Ana Paula Bortoletto.